Cartas Islâmicas

"Em breve mostrar-lhe-emos nossos sinais no Universo e em suas próprias pessoas, até que lhes seja esclarecido que ele (o Corão) é a verdade.Acaso não basta teu Senhor, que é Testemunha de tudo?" -Fússilat 53

sábado, fevereiro 10, 2007

Ciência e Religião - um conflito inútil


Em Nome de Deus, O Clemente, O Misericordioso!

Na passagem do ano, o site Edge.org apresentou para algumas mentes consideradas "brilhantes" uma questão com respostas em aberto. Essa é uma tradição do site e, para 2006/2007, a pergunta foi "o que pode nos deixar otimistas em relação ao futuro". Chegaram 150 respostas e, tratando-se de cientistas, editores, prêmios Nobel, intelectuais etc, os textos são longos (a lista ocupa 16 telas do site ou 230 páginas impressas). Muitos apontaram os avanços da ciência como um sinal seguro de que há razões para o otimismo. Entre algumas destas respostas, um traço comum chama a atenção: está bem próximo a descoberta de "algo (o que, precisamente, não é dito) que tornará Deus obsoleto". Os mais convictos de que a ciência provará que Deus é desnecessário são o evolucionista Richard Dawkins e o filósofo Daniel Dennett. O físico Marcelo Gleiser, único brasileiro na lista, é bem mais cauteloso e se mostra incomodado com a insistência neste conflito entre ciência e religião. "Não dá para esquecer o que está por trás da experiência religiosa. É a esperança. A vida é dificil, a religião oferece segurança", disse Marcelo ao jornal O Estado de São Paulo. No seu romance A Harmonia do Mundo, lançado no ano passado, Marcelo Gleiser homenageia o astrônomo Johannes Kepler (1571-1630) que, ao retomar a teoria copernicana, viu a disposição do sistema solar como a perfeição da obra divina. Uma perfeição e uma unidade que Kepler também reconhecia estar refletida no conhecimento humano, da geometria à música, da astrologia à astronomia. Em outro livro, A Dança do Universo, Gleiser já havia ressaltado que, em essência, à busca por conhecimentos nas ciências não difere tanto assim da busca mística por Deus. Em ambas, o que se procura é entender como e porque estamos aqui.

A convicção de que a ciência derrotará Deus nunca foi nem é unanimidade entre os cientistas. O confronto, entretanto, existe e poderá ser arrastar por muito tempo ainda. Penso que de forma inútil e desnecessária. Lembro-me dos primeiros versículos revelados por Deus ao profeta Mohammed (que a paz e as benções de Deus estejam com ele): "Lê, em nome do teu Senhor, que criou, que criou o ser humano de uma aderência. Lê, que o teu Senhor é o mais Generoso, Que ensinou através da pena, Ensinou ao homem o que este não sabia" (96:1-5). Para nós muçulmanos, não pode deixar de ser revelador que as primeiras palavras e recomendações da Mensagem Divina estejam relacionadas à busca e a fonte do conhecimento. Essa relação comprova que religião e ciência, pelo menos no Islam, não devem ser antagônicas. Os conflitos nascem da ignorância e os preconceitos do desconhecimento, ambos alimentados por dogmas. Vejamos, apenas, um dos aspectos mais visível do confronto entre as ciências e a religião: à questão do surgimento da humanidade. A teoria da seleção natural de Darwin é o dogma da sociedade científica contemporânea: "o homem é o resultado de um processo natural e não intencional". As tradições de leituras literais sobre a Criação nas Escrituras reveladas (não apenas do Sagrado Alcorão) levaram a interpretações distintas.

O dogmatismo nas ciências é uma herança do Iluminismo, que rejeitou, a piori, qualquer valor ao conhecimento religioso sobre o universo físico. Alguns evolucionistas levaram um pouco mais longe as teses da religião natural de Hume, negando não apenas o ato criador divino, mas a própria existência de um Poder Criador. A base desta negação, como está explicada no livro O Relojoeiro Cego, do já citado evolucionista Richard Dawkins, é uma generalização que "diviniza" a teoria do acaso (na medida que a considera onipotente). O que a teoria não explica é a origem da "inteligência" que imprime nas células um único tipo de ação para atender às necessidades de adaptar-se às mudanças que ocorrerem no meio em que vivem. Nenhum organismo vivo, movido unicamente por "impulsos eletromagnéticos", é capaz de identificar e reproduzir por si mesmo, um único e exclusivo "plano de ação" se não compartilhar algum tipo de conhecimento sobre ele com uma inteligência superior. Resultados de sucesso ao acaso, sem a presença desse conhecimento, são improváveis diante das muitas variantes de ações possíveis. Dawkins usa para comprovar sua tese os resultados de simulações evolucionistas feitas por computador e esquece (propositadamente?) a inteligência que está por trás do programa de informática utilizado.

A existência de uma forma superior de “racionalidade” nas leis naturais já está suficientemente provada pela física. Isso faz da teoria do acaso na evolução humana um contra-senso científico. Ela só é possível, inclusive, se aceitarmos a existência de provas posteriores à formulação da própria tese - o chamado elo perdido. Ou seja: admite-se que as provas venham a se adaptar à tese e não o contrário, como exige o verdadeiro espírito científico. Alguém pode lembrar os fósseis como provas, mas nem os paleontólogos acreditam que eles são suficientes. Isso porque, como vimos, não bastaria a combinação de múltiplos "acasos" no desenvolvimento simultâneo de várias células de um único organismo vivo. Seria preciso, ainda, que essa combinação se multiplicasse igualmente por vários milhares de espécimes desse organismo para que, diante das condições naturais do habitat adverso e da ação dos predadores, a mudança viesse a se perpetuar em uma nova espécie e/ou forma de vida. Desta maneira, as provas das fases intermediárias entre uma e outra forma de vida - o elo perdido - estariam preservadas, com mais probabilidades que outras mais antigas, e já teriam sido descobertas. Os fósseis até aqui encontrados, como admitem os paleontólogos, são peças iniciais de um quebra-cabeça incompleto e não provam a teoria do acaso ou da evolução macaco/hominídeos/homo como uma série completa e contínua de mudanças. Tudo que demonstram, de forma irrefutável, é que em determinadas épocas a diversidade biológica das formas de vida existentes na Terra era maior do que a atual.

Do lado da religião, o problema está na leitura literal que se faz das narrativas sobre a criação. Vejamos, como exemplo, o sentido contido no Sagrado Alcorão, na Surata An Nissá 1: "Ó humanos, temei a vosso Senhor, que vos criou de um só ser". Segundo o comentário do prof. Samir El Hayek, autor de uma tradução da interpretação do Alcorão para o português, o termo nafs (ser, ego, pessoa vivente, vontade, alma) e a expressão Min-há (uma espécie, uma natureza, uma similaridade), associada a ele, pode ser tomado no contexto de forma mais ampla do que referindo-se apenas a "um único indivíduo". O versículo designaria, então, que a alma, singular aos humanos, foi concedida a uma única espécie, no caso a espécie adâmica, a humanidade. O que nos leva as seguintes questões: fica implícita a possibilidade de ter havido outros tipos de espécies criadas não dotadas de almas? Seriam elas os fósseis que a arqueologia antropológica vem descobrindo e estudando? E Adão, como fica nesta interpretação? Foi ele o primeiro desta espécie, singular entre todas as outras criadas pelo Todo Poderoso?

No Alcorão, o conceito de Criação divina não está separado da idéia que nós, humanos, fazemos do que seja evolução, aqui empregada para definir uma "série de movimentos concatenados e harmônicos", que é entendida como se estendendo ao longo de uma linha no tempo/espaço (conceitos puramente humanos), mas não estando limitada por ela. Para corroborar, lembro-me das afirmações de que Deus "aumenta a criação, conforme lhe apraz" (35:1) "e cria coisas mais, que ignorais" (16:8) , ou mesmo de que "a duração de um dia para Ele é equivalente a 50 mil anos" (Al Ma’árij 4). E em Al Furcan 54 há, ainda, a afirmação de que "Ele foi Quem criou os humanos da água", uma antecipação - mais de 1.200 anos antes do desenvolvimento das ciências biológicas - do conhecimento (reiterado em An Nur 45 e Al Anbiyá 30) de que a origem de toda vida está relacionada ao meio líquido. Tal afirmação deve ter parecido, no mínimo, desconcertante para os primeiros que a ouviram e, certamente, continua sendo tanto para os que não estudaram biologia quanto para os que não acreditam no Poder de Deus e na veracidade da revelação feita ao Profeta (s.a.a.s).

Portanto, é óbvio que o conhecimento científico e a religião, isoladamente, não nos levam necessariamente à sabedoria e à fé. Albert Einstein, o mais brilhante cientista do século XX, tinha uma visão mística do conhecimento, e afirmava que “a mais profunda emoção que podemos experimentar é inspirada pelo senso do mistério (...) A existência de algo que nós não podemos penetrar, a percepção da mais profunda razão e da beleza mais radiante do mundo à nossa volta, que apenas em suas formas mais primitivas são acessíveis às nossas mentes – é esse conhecimento e emoção que constituem a verdadeira religiosidade”. A sunnah do nosso profeta Mohammed (s.a.a.s) contêm várias exortações para que os homens e mulheres muçulmanas tenham dedicação análoga ao estudo e à busca do saber. Cito apenas dois ahadith da longa série que é possível encontrar sobre o assunto: “Deus não criou nada melhor, nem mais perfeito, nem mais belo do que a inteligência, e Sua ira cai sobre aquele que a despreza”. “Adquira conhecimento. Ele capacita aquele que o possui a distinguir o certo do errado e ilumina o caminho para o Paraíso”.

Para que a síntese entre ciência e religião seja possível, é preciso concordar que não devemos ler o Sagrado Alcorão (ou qualquer uma das outras Escrituras) procurando provas para as teorias modernas das ciências, assim como não devemos exigir dessas teorias interpretações teológicas. O essencial das Revelações transmitidas por Deus não é explicar a existência física do Universo ou da humanidade (como estamos aqui), mas dar-lhe um objetivo (porque estamos aqui). Deus é o que existe de único que podemos considerar completo em si mesmo e a veracidade de cada Revelação Divina é evidente por si mesma. Mas, essas revelações também contêm signos "ambíguos" para que, oportunamente, sejam interpretados em novos estágios de conhecimento dados aos homens e corroborem a completude da mensagem divina. O que antes parecia obscuro e, hoje, se torna claro, alerta para que a nossa busca por respostas não nos desvie da base de toda a sabedoria. O ser humano veio para este mundo para progredir através de conhecimento e prece. Em termos de sua natureza intrínseca e capacidade, tudo é relacionado ao conhecimento. E o princípio, fonte, luz e espírito de todo conhecimento verdadeiro é o conhecimento de Deus. E a essência e o princípio do conhecimento de Deus é a fé em Deus.